domingo, 30 de dezembro de 2012

Tereré

Dentre os costumes que herdei do meu segundo estado, o Mato Gorsso do Sul, está o hábito de tomar tereré. Infelizmente a matéria prima necessária para preparar a bebida, a erva-mate, não está disponível em terras potiguares, logo, dependo dos parentes que moram no MS para receber o produto. Preparar tereré não é nenhum bicho de sete cabeças, mas o post vale a pena, já que a maior parte da minha audiência é do Nordeste, região onde a bebida é desconhecida. Vamos lá...

Para preparar um legítimo tereré sul-matogrossense você vai precisar de erva-mate, uma "guampa" e uma "bomba" (da esquerda para a direita). Guampa é o recipiente onde se coloca a erva-mate e a "bomba" é uma espécie de canudo de metal usado para sugar a bebida.


1º Passo: Coloque a bomba dentro da guampa e em seguida coloque a erva-mate, mas não de modo uniforme, tente distribuir a erva de modo que ela forme um um declive, como na foto abaixo.


2º Passo: Coloque água gelada lentamente e somente na parte mais baixa da erva, preservando a parte de cima seca. Veja na foto abaixo.

  

Depois é só formar uma "roda" (geralmente se forma um círculo de pessoas para tomar tereré), beber e papear com os amigos...a única diferença de uma cervejada é que o tereré só te deixa mais ativo, já que a erva tem propriedades estimulantes, mas não te deixa chapado!

No Mato Grosso do Sul existe um ditado que diz: "Quando avistar uma roda de tereré, fuja". Diz a lenda que uma roda de tereré é sinônimo de fofoca...maldade desse povo...mas por via das dúvidas...

sábado, 3 de novembro de 2012

Como colecionar latinhas de cerveja

Entusiasta e apreciador de cerveja, costumo comprar quase tudo(desde que possa) relacionado ao tema. Não se trata de uma marca específica e sim da bebida de um modo geral, mas o que coleciono realmente são as latinhas. Não sei se você já percebeu, mas toda latinha de cerveja é uma obra de arte industrial pós-moderna. Baseado na minha experiência como colecionador, vou colocar aqui algumas dicas para quem quer começar a colecionar latinhas. Aliás, isso não é difícil, já que o investimento é nada mais nada menos do que comprar a cervejinha do final de semana. Vamos lá?

Perfil da coleção: O perfil da minha coleção é "TUDO", ou seja, foi latinha de cerveja eu tô colecionando. Uma vez li um colecionador que afirmava que na sua coleção não entrava "qualquer uma lata", isso pra mim é uma besteira. Como já disse anteriormente, toda latinha é uma obra de arte independente de ser de uma marca de cerveja popular, sofisticada ou rara.

Escolha: Selecionar uma boa peça é fundamental. Na hora de comprar a cerveja preste atenção na integridade da latinha. Evite latas amassadas, arranhadas ou descascadas, quanto mais íntegra a latinha melhor. Mas também não precisa ficar bitolado procurando falhas microscópicas na lata.

Colecionar latas vazias ou cheias?: As duas formas são admitidas, particularmente não gosto de coleções de latas cheias pois as peças ficam pesadas e mais suscetíveis a danos(se cair, já era). Sem contar que você não vai ter o prazer de beber a cerveja...

Preparação (passo a passo): Como a minha coleção é de latas vazias, vou demonstrar aqui de forma bem ilustrativa a minha técnica de preparação das peças. É bem simples. Alguns colecionadores esvaziam as latas do modo tradicional, ou seja, usando o mecanismo de abertura da lata. Acho horrível.

Ferramentas: Você vai precisar, além da cerveja, de um cooler, um abridor de lata e um lenço de papel.


Esvaziar a lata: Para manter intacta a parte de cima da lata você terá que esvaziá-la pelo fundo. Coloque a lata de cabeça para baixo no cooler e com o abridor forrado com o lenço de papel (para evitar que um possível impacto danifique a peça) fure um pequeno orifício no fundo da lata. Pressione levemente e vá aumentando a pressão até o alumínio ceder. É importante preservar todas as informações que estão no fundo da latinha(data de fabricação, validade, número do lote, etc.). Lembre-se: quanto mais integridade, melhor.


O que fazer com o líquido?: Se você fizer tudo direitinho terá um orifício como o que eu consegui na foto abaixo. Bem pequeno. Com um orifício como este será muito difícil esvaziar a latinha. Alguns colecionadores  fazem buracos enormes e sinceramente, acho que acabam agredindo a peça. Mas enfim...solucionei o problema com uma ferramenta simples...


Tomar a cerveja faz parte do meu rito de colecionador: Adotei o canudinho!! Além de permitir a você beber a cerveja, o canudo deixa pouquíssimo líquido no interior da lata e que rapidamente evapora.  Você bebe a cerveja e imediatamente poderá acrescentar a lata à sua coleção. Obs: Acredita que alguns colecionadores jogam a cerveja fora?!?! Pra mim isso deveria ser crime previsto no código penal.


Pronta para a coleção: Abaixo o resultado final da preparação da peça. Uma lata totalmente íntegra que nem parece que foi esvaziada. Ela já pode ser guardada junto com as demais, de preferência em um lugar da casa onde todos possam vê-la.


No mais, aprecie com moderação e não fique obcecado atrás de comprar latas raras ou coisa que o valha. Lembre-se que o objetivo de toda coleção é te dar prazer e não torná-lo um bitolado e obsessivo.

Saúde!! 

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sábado, 1 de setembro de 2012

El Mariachi, de Robert Rodriguez


O final da década de 80 e início de 90, foi um período de transformações na indústria do cinema estadunidense, James Cameron em "O segredo do Abismo" (1989) e "O exterminador do Futuro II" (1991) revolucionou os efeitos especiais com o uso da computação gráfica e inaugurou a era das produções milionárias (O exterminador do futuro II foi o primeiro filme da história a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares), Tim Burton e o seu "Batman" (1989) também inaugurou a era dos supersalários, com Jack Nicholson faturando 50 milhões de dólares entre salário e participação na bilheteria.

O que um aspirante a diretor de cinema, com 7 mil dólares no bolso poderia fazer no início da era das produções milionárias e dos supersalários? O dinheiro daria para comprar uma passagem para Hollywood e tentar a sorte na "capital mundial do cinema", mas Robert Rodriguez teve outra ideia, e resolveu fazer um filme com o dinheiro que dispunha. Essa ousadia apresentou ao mundo um dos melhores diretores da nova geração e, por incrível que pareça, um ótimo filme chamado "El Mariachi" (1993).

O filme se passa em uma cidade do interior do México onde um Marichi (típico músico mexicano) chega para procurar emprego. O músico traz o violão em uma caixa específica para guardar o instrumento, e é aí que os seus problemas começam. Um traficante violento que acaba de sair da prisão com o objetivo de matar o seu rival, um chefão das drogas, usa uma caixa idêntica, a diferença é que dentro ele não carrega um violão, e sim uma arma. O mariachi acaba confundido com o bandido e passa a ser perseguido. Para completar a maré de azar, ele ainda se envolve com a namorada do chefão despertando a ira do criminoso. O que se vê daí pra frente são sequência de tiroteios, perseguições e mortes.

O jeito Robert Rodriguez de fazer cinema

Para rodar "El Marichi" com 7 mil dólares (que devem ter sido gastos em grande parte só em película), Rodriguez chamou amigos e moradores locais para "atuarem" no filme. A produção inexiste. Roupas, sapatos, carros, etc. são de uso pessoal dos atores, que aliás, dão um show à parte com uma canastrice em estado bruto: olhos esbugalhados, caretas, movimentos bruscos, enfim, amadorismo total.

Então, como é que um filme com um roteiro como esse, atores péssimos e um orçamento lastimável conseguiu se destacar e revelar Robert Rodriguez à concorrida indústria cinematográfica estadunidense? É aí que entra a genialidade de Rodriguez: Ele transformou todas as limitações envolvidas na produção em aliadas. Se "El Mariachi" tivesse a pretensão de ser um filme de ação sério, como tantos outros que são feitos com atores ruins e baixo orçamento, teria sido um fiasco. Mas não é o caso.

A fórmula que Rodriguez criou para anular essas limitações, transformou-se em uma espécie de assinatura do diretor. Seus filmes possuem uma estética bem particular e elementos inconfundíveis: situações inverossímeis, violência tosca, bandidos e "mocinhos" caricatos, tiroteios em lugares inusitados, locações em cidades mexicanas(de preferência com muita areia), cenas que lembram os antigos filmes de western, mulheres sensuais e armadas até os dentes. No geral, o exagero dá o tom dos filmes de Robert Rodriguez e a ação é apenas uma atração secundária.

"El Mariachi" é um daqueles poucos filmes que possuem uma "aura" de originalidade, uma deliciosa subversão ao paradigma cinematográfico da época, um contra-senso às produções milionárias e super salários da indústria estadunidense de cinema.

Particularmente, nunca me canso de assistir "El Mariachi".

Veja o trailler

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Uruguai, por Eduardo Galeano

Montevidéu, capital do Uruguai

Até um certo momento o Uruguai só era mencionado no Brasil por duas coisas: ricos iam se divorciar e/ou casar e ter lua-de-mel em Punta del Este e pela derrota no fatídico dia 16 de julho de 1950 para a seleção Uruguaia no Maracanã, de virada, na Copa do Mundo feita para o Brasil ser campeão. Alguns haviam passado por Montevidéu e diziam que ficava a meio caminho entre Porto Alegre e Buenos Aires.

“Os uruguaios temos certa tendência a crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba”, diz Galeano. “Os grandes meios de comunicação, aqueles que têm influência universal, jamais mencionam esta nação pequenina e perdida ao sul do mapa.”

Um país de poucos milhões de habitantes que, como diz ele, tem população similar a alguns bairros das grandes cidades do mundo, mas que provocaria algumas surpresas para quem se arriscasse a chegar por ali. 

Um país que aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha. O Uruguai adotou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e quatro anos antes da França. Teve lei do divórcio setenta anos antes da Espanha e voto feminino quatorze anos antes da França.

O Uruguai teve proporcionalmente o maior exílio durante a ditadura militar, em comparação com sua população. Assim, tem cinco vezes mais terra do que a Holanda e cinco vezes menos habitantes. Tem mais terra cultivável que o Japão e uma população quarenta vezes menor.

O país ficou relegado a uma população escassa e envelhecida. Tristemente Galeano diz que “poucas crianças nascem, nas ruas vêem-se mais cadeiras de rodas do que carrinhos de nenês”.

Ainda assim, Galeano consigna bons motivos para gostar do seu país: “Durante a ditadura militar, não houve no Uruguai nem um só intelectual importante, nem um só cientista relevante, nem um só artista representativo, único que fosse, disposto a aplaudir os mandões. E nos tempos que correm, já na democracia, o Uruguai foi o único país do mundo que derrotou as privatizações em consulta popular: no plebiscito de fins de 92, 72% dos uruguaios decidiram que os serviços essenciais continuariam sendo públicos. A notícia não mereceu sequer uma linha na imprensa mundial, embora se constituísse numa insólita prova de senso comum.” Talvez por esses “maus exemplos” tentam desconhecer o Uruguai, apesar da insistência dos uruguaios de afirmar que seu país existe. 

Por tudo isso, Galeno se orgulha do seu “paisito”, “este paradoxal país onde nasci e tornaria a nascer”. (Texto extraído do Blog do Emir Sader.)

Nota do Blog: Reproduzo um texto de outro blog quando ele vale a pena, e vale quando traz informações novas, inesperadas, capazes de provocar reflexões no leitor, como este que acabei de publicar sobre o Uruguai e que foi escrito por um de seus mais nobres filhos, o intelectual Eduardo Galeano.

Curiosamente, mais que em outros tempos, tenho afirmado para os colegas, quando o assunto é pertinente: "Montevidéu é a cidade da América do Sul com a melhor qualidade de vida e está entre as 30 mais seguras do mundo". Alguns ainda tentam "remendar" a informação, "Mas isso é só na capital né?" O fato é que o Uruguai está atrás somente do Chile e Argentina em IDH (índice de desenvolvimento humano) e bem à frente do Brasil. É um país pobre, mas como demonstra a sua história e seus atuais indicadores sociais, é uma nação formada por uma população socialmente desenvolvida, educada, politizada e culturalmente ativa. Somente a desinformação e o desconhecimento podem fazer com que nós, brasileiros, subestimemos as qualidades do Uruguai e de seu povo. O "paisito" é sim um belo país, que um dia terei o prazer de visitar e que há tempos sei que existe. 

terça-feira, 27 de março de 2012

Dr. Maltez Fernandes

Dr. Sebastião Maltez Fernandes ( Dr. Matez )

Não tive o privilégio de conviver muito tempo com o meu avô, Dr. Sebastião Maltez Fernandes. As lembranças turvas me levam a um passeio em seus braços, em uma manhã ensolarada no jardim do casarão de Mossoró. Me transportam também para um outro passeio, dessa vez na fazenda da família, a "Guanabara". Com uma das mãos buscava apoio na mão do meu avô, com a outra puxava um brinquedo artesanal, um "carrinho de lata" que teimava em virar, pacientemente ele me acompanhava e me ajudava a desvirar o carrinho. Por último me lembro de entrar em um avião para me despedir do meu avô, ele estava prestes a embarcar para o Rio de Janeiro, onde faria um tratamento de saúde. Percorri o corredor do avião e o encontrei sentado (era o único passageiro), e essa foi a última vez que vi o meu avô com vida. Outros detalhes da vida de Dr. Maltez, me foram passados pelos meus tios, tias e minha mãe.

Felizmente o memorialista Francisco Rodrigues (Tio Chico), genro de Dr. Maltez cuja memória é prodigiosa, traçou uma breve biografia do meu avô. O texto foi publicado em setembro de 2011, na 14ª edição da revista "Oeste", editada pelo Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP. Reproduzo então a referida biografia escrita por "Tio Chico", na intenção de disponibilizá-la para todo o mundo, bem como imortalizar a figura de Dr. Maltez, o cidadão íntegro, o empresário, o político e acima de tudo o médico, para quem o juramento de hipócrates não era uma mera formalidade acadêmica, mas um código de ética a ser seguido e respeitado. Certamente um dos homens mais importantes da história de Mossoró e do Rio Grande do Norte.

Final de 1973: "Vovô Maltez" brincando comigo

Dr. Matez Fernades por Francisco Rodrigues da Costa

Sebastião Maltez Fernandes, este seu nome completo. Filho dos agricultores Leonel Fernandes Carneiro de Oliveira e Maria José Fernandes de Oliveira. Nasceu aos 7 de abril de 1904 no sítio Crisolândia, na zona rural de Caraúbas, de propriedade dos seus genitores.

Concluiu o primário no Grupo Escolar Antônio Carlos da cidade de Caraúbas. Como prêmio, pelas boas notas alcançadas, foi convidado para continuar seus estudos no Rio de Janeiro, então Capital do Brasil, onde morava um tio, que lhe ofereceu a grande oportunidade de sua vida. Graduou-se em medicina pela então Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, como médico obstetra.

De volta à terra natal, no início dos anos 30, começou a clinicar. Casou-se em 1938 com Maria de Lourdes Gurgel e tiveram os seguintes filhos: Maria José Gurgel Fernandes, formada pela Escola Doméstica de Natal, (in memoriam), Antônio Maltez Gurgel Fernandes, engenheiro agrônomo, formado pela Universidade Federal do Ceará, (in memoriam), Jaci Gurgel Fernandes, professora formada pela UERN, Gláucio Gurgel Fernandes, médico, formado pela Universidade Federal de Pernambuco, Maria da Conceição Gurgel Fernandes, médica, formada pela Universidade Federal da Paraíba e Maria do Socorro Gurgel Fernandes, médica formada pela Universidade Federal de Pernambuco.


Família: Da direita para a esquerda - Dr. Maltez, Maria José Gurgel, Antônio Maltez (meu pai), Jacy Gurgel, Maria De Lourdes (Vovó), Maria do Socorro e Gláucio Gurgel. 

Com o falecimento dos seus genitores, Dr. Maltez adquiriu, por compra, as partes do terreno que cabiam aos seus irmãos, registrando a nova propriedade com o nome de  fazenda “Guanabara”.

Dr. Maltez – O médico 

Assistir às suas pacientes, quer no período ou não da gravidez, foi seu maior sacerdócio. Não temos o número exato das crianças que vieram ao mundo pelas suas mãos. Queremos crer que, em Mossoró, mais de quinze mil sentiram a clássica palmadinha no bumbum, aplicada pelo caridoso médico. 

Contam coisas interessantes a respeito de doutor Maltez. Ele mesmo me contou dois casos que passo a narrá-los: uma vez olhando um relógio de parede, que marcava 12 horas, viu no mostrador o rosto de um dos seus irmãos. Logo depois recebeu a notícia da morte do ente querido que falecera justo naquela hora.

Numa noite chuvosa, estrada enlameada, orlada de “pereiros” e xiquexiques, o carro dirigido por Luizinho, que também fazia parte da banda musical de Caraúbas, seguia vagarosamente. De repente Dr. Maltez diz para o motorista: “Passe naquela casa iluminada pela luz de lamparina”. No seu interior uma mulherzinha se contorcia em dores. O marido, aflito, saíra em busca de ajuda. Sem se identificar, Dr. Maltez pede para ver a paciente e, em seguida, diz para alguém ferver água. Em poucos instantes, o choro forte de uma criança aliviava as dores da mãe feliz.

D’outra feita, em visita a uma enfermaria repleta de candidatas a mamãe, Dr. Maltez pergunta por que uma delas permanecia ali. Ouviu: “Está esperando para ser cirurgiada”. Era uma vida em jogo. “Se não a levarem logo para a sala de parto, a criança nascerá aqui mesmo” – disse  Dr . Maltez. A paciente livrou-se de ter o ventre cortado pelo bisturi. O médico que a operaria teve um problema no seu automóvel, daí o atraso. Somente em último caso, Dr. Maltez apelava para a cesariana, Zezinha, sua filha, em partos normais, deu ao pai orgulhoso suas primeiras netas, Daniela e Giovanna. Foi  Dr . Maltez quem assistiu a filha por ocasião dos seus dois partos. 

Soube, por Geraldo meu irmão, amigo dos filhos do saudoso casal Evilásio/Francisquinha Dias, que ela fez o seguinte  comentário: “Dr. Maltez quando prognosticava a data do nascimento de uma criança era tiro e queda”. E arrematou: “Foi assim com os meus cinco filhos: Enilce, Célio. Nilma, Clélia e Marcos”. Os dois últimos são médicos e clinicam em Natal.

Adelaide de Jesus Costa, enfermeira e viúva do médico areia-branquense Francisco Fernandes da Costa, não regateou elogios: “Foi uma tranquilidade dar a luz aos meus  filhos: Luiz Henrique, Roberto e Costa Neto. Contei, abaixo de Deus, com as mãos milagrosas do Dr. Maltez”.

De uma mãe preocupada: “Dr. Maltez, minha filha está com um mioma, e, cada vez mais, eu vejo que ele aumenta”. Depois de examinar a mocinha, o experiente médico  disse para a mãe aflita: “Tenha calma, vou cuidar do 'mioma' com carinho”.  Após alguns meses, a mocinha, em vez do mioma, tinha um robusto bebê para amamentar.

Meados de 1946, veio residir em Mossoró. Foi o primeiro diretor da Casa de Saúde e Maternidade Dix-sept Rosado com o Dr. João Marcelino.

Dr. Maltez – O Político

Morava em Caraúbas quando se candidatou pela primeira vez a deputado estadual. Foi por ocasião da redemocratização do País, com a deposição de Getúlio. Conseguiu a eleição pela legenda do Partido Social Progressista, dirigido no Rio Grande do Norte pelo deputado federal Café Filho.

Na campanha eleitoral de 1947, para escolha de um terceiro senador, como aconteceu em todos os estados da federação, recebeu do senador Georgino Avelino (PSD) a seguinte proposta: “Dr. Maltez, deixe o seu dedo correr sobre o mapa do RN. Na cidade indicada, o senhor terá consultório e emprego compensador”. Era uma proposta tentadora. Mas o deputado caraubense teria que apoiar a candidatura do industrial João Câmara ao Senado.  Dr. Maltez, com aquele seu semblante humilde, mas decisivo, agradeceu dizendo: “Senador: prefiro, sem retribuição, acompanhar meu correligionário Café Filho”.

Por falar na sua humildade, abro um parêntese e dou a palavra a um colega seu, o  Dr. Milton Marques de Medeiros, que assim se expressou no prefácio do nosso livro Caminhos de Recordações: “Dr. Maltez Fernandes era uma figura ímpar. Sua humildade até hoje me emociona. Não havia nele soberba nem exibicionismo. Nem tão pouco nos falava em tom professoral. Pelo contrário, tudo nos era transmitido pelo forte exemplo pessoal e através de sábias e sensatas conversas. Amenas, antes de tudo. Somente com o passar do tempo é que fui aquilatando melhor cada ensinamento”.

Em 1950, foi reeleito pela mesma legenda do PSP, obtendo expressiva votação somente em Mossoró. Também foram candidatos a deputado estadual, e tiveram esta cidade como reduto, Carlos Borges de Medeiros e Raimundo Soares de Souza (UDN), Antônio Rodrigues de Carvalho e José Nicodemos da Silveira Martins (PTB) e Francisco Solon Sobrinho (PSP), dentre outros. Dr. Maltez presidiu o Legislativo Estadual de 1953 a 1956.

Em 1954, Café Filho, já presidente da República, traçou um esquema para o seu PSP aqui no Rio Grande do Norte apoiar os candidatos ao Senado: Dinarte Mariz (UDN) e Georgino Avelino (PSD). Em contrapartida, o PSP daria os dois suplentes de senador. E o interessante é que ambos se tornariam titulares. Um, Reginaldo Fernandes, com a eleição de Dinarte para o Governo do Estado em 1955; e o outro, Sérgio Bezerra Marinho, com a morte de Georgino, 1959. Dr. Maltez, seguiu a orientação partidária e apoiou Eider Varela para deputado federal, que foi eleito
.
Em 1958, Café Filho já estava descartado da política. Dr. Maltez, aliou-se a Djalma Maranhão e tentou, sem êxito, voltar à Assembléia Legislativa. Episódio que levou o ex-deputado e ex-presidente da Assembléia Legislativa a encerrar sua carreira, como político.

Dr. Maltez – Sociável

Foi um dos fundadores do Lions Clube de Mossoró; sócio-proprietário do Clube Ipiranga; maçom da Loja 24 de junho.

Juntamente com o seu colega e conterrâneo Dr.Gentil Fernandes, foi um apaixonado pela língua, ESPERANTO, criada pelo médico polonês Ludwig Zamenhof. 

Dr. Maltez - Espirituoso. 

Sempre dizia seus gracejos oportunos, sem constranger a ninguém. Padre Huberto gostava de visitar algumas pessoas. Boquinha da noite ele chega à casa de  Dr. Maltez. e dá-se o seguinte diálogo:

- Vamos sentar Padre Huberto.
- Estou bem, Dr. Maltez. – Respondeu o religioso do alto dos seus quase dois metros.

Passados uns dois minutos, o mesmo convite por parte do médico, com pouco mais de um metro e cinquenta.

- Já disse que estou bem, repetiu o padre.

E dr. Maltez, calmamente: “Eu sei que o senhor está bem. Quem não está sou eu”. Com o pescoço empinado a olhar para o céu.

Certa vez, Zezinha chega para o pai e diz:

- Papai, já estou cansada de embalar Daniela. E ela não dorme de jeito nenhum. Que devo fazer?

E doutor Maltez, sem pestanejar:

- DANI-ELA no berço.

Dr. Maltez – O versejador em família. 

Em Junho de 1934, começou a namorar sua futura esposa, dona Lourdinha. O Apaixonado ofereceu sua foto com uns versinhos: 

"Para lembrar o São João
De trinta e quatro passado
Em que foi meu coração
Para sempre conquistado
À Lourdinha encantadora
Já dele possuidora
Dou essa fotografia
Lembrança daquele dia" 

De férias na fazenda Guanabara, todos juntos ao redor da mesa de refeições, não raro, recitávamos essas oito linhas. Era uma alegria geral.

Para Socorro, a filha caçula, quando lhe rasgou a gengiva o primeiro dentinho, o pai coruja não perdeu tempo, compondo esta quadrinha: 

"Tenho um dentinho
Que é danado pra morder
Se você não acredita
Bote o dedo só pra ver."

Aos domingos, a Rádio difusora de Mossoró, levava ao ar o programa “Manhã Festiva”, animado pelo saudoso Genildo Miranda. A meninada, de seis a oito anos, comparecia para recitar seus versinhos. Conceição, filha de  Dr. Maltez, ganhou um prêmio, ao declamar uma quadrinha de autoria do pai.

"Sou forte e sou bonita
Já sou quase uma mocinha
Me chamam de senhorita
Mas eu sou Miss Arrozina."

Com Gláucio, não foi diferente. Queria ser Tarzan e vivia exibindo sua musculatura. Foi ao palco da Difusora e faturou o prêmio, recitando a quadrinha:

"Essa marra meus senhores
Que tanto agrada as meninas
Devo somente aos fatores
Da saborosa Arrozina”.

Dr. Maltez - o Empreendedor

Em 1966, com os médicos Leodécio Fernandes Néo, César Augusto de Alencar, Eilson Gurgel do Amaral, construiu a Casa de Saúde e Maternidade Santa Luzia. Depois outros médicos se associaram ao empreendimento: Clóvis Augusto de Miranda, José Mario Gurgel e José Anchieta Fernandes.

Dr. Maltez também atendia pela  Carteira de Acidente do Trabalho, do INPS. Muitos acidentados tiveram nele o médico caridoso e justo. Prazos marcados para o pronto restabelecimento da saúde de cada um doente. Alguns pacientes, às vezes, queriam enganar a boa índole do médico. Nos ferimentos botavam leite de mamão ou usavam de outro artifício para prolongar o benefício. Dr. Maltez os advertia e, muitas vezes, suspendia o tratamento, dando “alta”, para coibir o condenável abuso.

Dr. Maltez deixou saudades... 

No final da vida contraiu uma enfermidade que o pôs de cama por algum tempo. Certa tarde,vai visitá-lo o  Dr. Tarcísio Maia, então governador do estado, que foi oferece seus préstimos ao colega e amigo de muitos anos.

Levado para o Rio de Janeiro,  Dr. Maltez ficou internado no Hospital da Lagoa. Não saiu de lá com vida. Faleceu aos 12 de julho de 1978. Foi sepultado em Mossoró, no cemitério São Sebastião.

Anos depois de sua morte, eu soube que uma ex-paciente dele guardava uma receita médica. Confessou que muitas vezes usou, com sucesso, o mesmo medicamento prescrito por Dr. Maltez.

Em rápidas linhas, o perfil biográfico do médico íntegro, do cidadão honrado e do sogro amigo. O inesquecível Dr. Sebastião Maltez Fernandes. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Imagens do sertão potiguar

No período de carnaval estive no sertão potiguar, mais especificamente no ao alto Oeste, entre os municípios de Patu e Caraúbas. As pessoas que vivem naquela região, apesar das melhorias advindas da construção de cisternas e da chegada da eletricidade, ainda vivem de forma bastante simples e preservam técnicas de sobrevivência e costumes que remontam o período colonial. Aproveitei a ocasião para fazer um pequeno registro a partir do meu aparelho celular. Tecnicamente falando as fotos possuem limitações, uma vez que o meu aparelho celular não dispõe de recursos que permitam controlar algumas variáveis, tais como diferenças causadas pela incidência de luz, profundidade, etc. As fotos valem como registro da vida simples (porém alegre) e do ambiente onde vive o sertanejo potiguar do século XXI. Clique nas imagens para vê-las em tamanho original.

O elemento humano...




Moradias...
Fazenda Guanabara

Fazenda Guanabara (Casarão): Segundo o professor de história Antônio Gomes (UERN), esse tipo de residência era construída pelos donos de grandes fazendas na parte mais alta das propriedades, tinha vários objetivos simbólicos. Ela mostrava aos subalternos quem estava acima de tudo(quem mandava) e sua concepção baseava-se nos grandes castelos da Europa medieval. Era em suma construída para demonstrar opulência e poder. 

 Fazenda Guanabara: Local utilizado para alimentar o gado.

Sítio Santa Maria: Fogão à lenha e panelas de barro ainda são bastante usados pelo sertanejo. No detalhe a bebida preferida do sertão, a cachaça.

Apesar das geladeiras e até geláguas, o "pote" ainda é amplamente utilizado no sertão. É um recipiente feito de barro utilizado para armazenar água potável colhida em açudes ou cisternas.

Entorno...