04 janeiro 2015

Diário De Um Jornalista Bêbado - Dica de Filme.


O filme "Diário de um Jornalista Bêbado" (2011) não tem nada de extraordinário, mas traz a tona aspectos políticos e jornalísticos que o tornam interessante. A história se passa na Ilha caribenha de Porto Rico, em 1960, para onde se muda o aspirante a escritor e jornalista de Nova Iorque Paul Kemp (Johnny Depp) contratado por um jornal decadente. Alcoólatra, Kemp vê no novo emprego uma oportunidade para levar uma vida sem compromisso com a profissão e dedicada ao vício. 

Em suas andanças por San Juan, capital de Porto Rico, o jornalista percebe o contraste entre a vida de miséria dos nativos e a ostentação e boa vida dos estrangeiros que formam a elite portoriquenha (empresários, banqueiros, especuladores imobiliários, etc.). 

Jornalismo, poder e construção da realidade.

No filme, ao mesmo tempo em que o editor do diário veta as matérias de Kemp que denunciam a realidade do país, porque vão contra os interesses de anunciantes, ele é cooptado por um inescrupuloso empresário (Aaron Eckhart) que quer usar o seu texto para defender os seus projetos econômicos. A trama do filme gira em torno desse dilema ético pelo qual Kemp se vê atormentado. As cenas que mostram os diálogos entre Kemp e o seu editor, o empresário inescrupuloso e os grupos econômicos que atuam em Porto Rico, ilustram de forma bem didática a relação de proximidade entre o jornalismo e o poder econômico, bem como a utopia da objetividade jornalística tão reivindicada pelos profissionais da imprensa. 


Aspectos políticos

“Diário de um Jornalista Bêbado” está inserido em um contexto geopolítico que reúne o auge da guerra fria e o primeiro ano da revolução cubana, isso proporciona ao espectador mais atento fazer um comparativo entre as duas ilhas caribenhas - Cuba e Porto Rico - na questão política. É possível ter uma noção, através da Porto Rico retratada no filme, do que  era Cuba antes da revolução de 1959. A exemplo de Porto Rico Cuba não passava de um estado-balneário dos EUA, projetado para a diversão de ricaços, com uma infraestrutura voltada para a especulação imobiliária e um sistema financeiro bem ao estilo "paraíso fiscal."

Na Porto Rico do Filme (e na Cuba de Fulgencio Batista) o desenvolvimento chegava através de hotéis luxuosos à beira do mar do Caribe, cassinos, carros de luxo, barcos e outras benesses do capitalismo que nunca alcançavam o povo, este continuava a viver na miséria absoluta e na humilhação. Esses aspectos são bem retratados no filme graças as andanças de Kemp, que passeia entre as duas realidades. Em uma cena o empresário inescrupuloso expulsa um grupo de nativos que estava em sua paradisíaca “praia particular”. Em uma outra cena, passeando pela ilha, Paul Kemp passa por uma vila miserável e registra com sua câmera fotográfica uma criança vivendo em um carro abandonado.

O filme

O pano de fundo é composto por amenidades típicas do cinema americano: Romance entre Kemp e a deslumbrante namorada do empresário (Amber Heard), a vida boêmia dos jornalistas, regada a muito rum nas noites de San Juan, belas locações das praias da capital porto-riquenha e autossuperação do personagem decadente.

Johnny Depp é um ator excepcional e não decepciona, mas o trabalho do coadjuvante Giovanni Ribisi, na pele do atormentado e autodestrutivo “Moburk”, não fica atrás. A produção é competente na tarefa de recriar a San Juan dos anos 60 e as estratégias (para baratear a produção) vão de locações noturnas e tomadas fechadas a cenas em locais ermos. 

A dramaturgia é aspecto secundário em “Diário de um Jornalista Bêbado”, é um filme que pode ser muito bem aproveitado em uma aula de jornalismo, história, sociologia ou ciências políticas.

Título Original: The Rum Diary.
Gênero: Drama.
Direção: Bruce Robinson.
Elenco: Johnny Depp, Aaron Eckhart, Giovanni Ribisi, Amber Heard.