domingo, 20 de dezembro de 2015

Cowspiracy: O segredo da sustentabilidade


Quando se fala em aquecimento global e sustentabilidade logo pensamos em redução da queima de combustíveis fósseis, economia de água, redução do consumo e reciclagem do lixo, são os cânones do ambientalismo. Mas se você descobrisse que existe algo mais devastador do que tudo isso e que você participa ativamente desse processo através do simples ato de comer?

O documentário “Cowspiracy: O segredo da sustentabilidade”, do cineasta Kip Andersen, é corajoso, inquietante e provocador. Baseado em relatórios das nações unidas, Andersen descobriu que o maior vilão do aquecimento global, maior poluidor do planeta e maior destruidor do meio ambiente não são os combustíveis fósseis e sim a pecuária. E o mais intrigante é que esse dado é omitido por governos, políticos e também pelas ONGs ambientais como o greenpeace.

O cineasta investiga o motivo dessa omissão e chega a conclusões alarmantes: O lobby da poderosa indústria das carnes e laticínios dificulta, através de ações “legais” e até mesmo uso da violência, o acesso a essa informação. As ONGs ambientais a omitem porque não querem perder financiadores.

O processo de degradação do meio ambiente pela pecuária é um ciclo. Os animais criados para corte e produção de laticínios precisam ser alimentados, para isso é necessário terra para plantar grãos, quanto mais animais mais terras e mais terras significa mais florestas derrubadas. Mais animais também significa mais água para eles beberem e para irrigar os grãos que vão alimentá-los. Toneladas de grãos que poderiam alimentar milhares de pessoas estão alimentando animais para que produzam uma quantidade insignificante de carne. O mesmo processo ocorre com a água. A flatulência dos animais e seus dejetos liberam grandes quantidades de metano, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa e o aquecimento global. As fezes dos animais contaminam os oceanos criando áreas chamadas de “zonas mortas."

A decisão de fazer o documentário afetou a vida do cineasta, ele teve o financiamento do filme cancelado, o patrocinador alegou que ele estava tratando de “assuntos controversos”. Andersen também viveu o medo de se tornar mais um alvo da indústria da carne e laticínios. Por fim vira “vegano” e abandona o consumo de todo e qualquer produto de origem animal. Segundo os especialistas entrevistados pelo cineasta, o veganismo é a forma mais eficiente de preservar o planeta. Como disse um dos entrevistados “Não existe ambientalista que come carne e laticínios”.

Um documentário que provoca grandes reflexões e que mostra que uma simples mudança de hábito pode salvar o planeta, acabar com a crueldade e fazer com que nós, humanos, tenhamos uma vida mais ética e respeitosa com as outras espécies que habitam o planeta. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Viagem à palestina: Prisão a céu aberto (Resenha)


Se eu tivesse que definir o livro “Viagem à palestina: Prisão a céu aberto”, da jornalista Adriana Mabilia, em uma palavra eu o definiria como “indispensável”. Em uma linguagem inteligível e didática, Mabilia consegue explicar aspectos fundamentais para a compreensão do drama, sofrimento, abandono e humilhação a que o povo palestino é submetido por Israel e o seu violento exército.

A obra é um relato da viagem que a autora fez à Palestina, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, período em que Israel promoveu mais um massacre à Faixa de Gaza. Ao meu ver o que enriquece esse livro-reportagem é exatamente a desobediência da jornalista a alguns preceitos clássicos da atividade, como por exemplo, limitar-se a narrar os fatos sem interferência das emoções para que os relatos se aproximem ao máximo da "realidade". Mabilia questiona se ignorar as emoções também não é uma forma de falsear a realidade. Assim a jornalista faz da emoção uma aliada na sua narrativa. Ela  mergulha na difícil rotina do povo palestino, conversando com homens e mulheres palestinos que contam suas histórias de sofrimento e violência, anda pelos territórios ocupados como se fosse árabe, acompanha protestos, entrevista políticos palestinos, diretores de ONGS, ativistas e cidadãos israelenses.

Dentre os inúmeros aspectos que me chamaram a atenção no livro, destaco alguns de suma importância, como a noção distorcida de que o povo palestino é violento; absolutamente, como bem frisou uma italiana observadora de uma ONG: "A Europa não tem ideia do que acontece por aqui, a informação que chega para nós é totalmente distorcida. O povo palestino tem todos os motivos do mundo para ser revoltado e violento. Mas consegue manter a calma. É um povo pacífico". Posteriormente, ao analisar o fenômeno dos homens e mulheres-bomba, a jornalista observa que a imprensa Ocidental só mostra "da explosão em diante" e despreza todos os fatos que criaram o (a) suicida.

Jornalista Adriana Mabilia, autora do livro

Adriana Mabilia também descreve a angústia que é se deslocar pelos territórios ocupados e ser constantemente submetida às revistas nos "checkpoints", as barreiras que Israel cria dentro dos territórios ocupados com a justificativa de "conter o terrorismo", mas que na prática servem mesmo para atrapalhar a vida dos palestinos. São locais perigosos, como disse um motorista palestino: "Os soldados são treinados para matar árabes". Histórias de violência, desrespeito aos direitos humanos, barbáries cometidas pelo exército e colonos judeus, roubo de terras, etc...são as histórias de todos os palestinos, sem exceção.

Sociedade militarizada e paranoica

Israel também paga um preço alto pelos crimes que comete...

Diz Adriana Mabilia: "Em Israel a energia é bélica, o clima é hostil, vive-se pronto para a guerra[...]; são pessoas que só enxergam inimigos. São pessoas que alimentam uma paranoia". Foi exatamente essa a impressão da jornalista ao se locomover dentro de Israel. O conforto, o trasporte público de qualidade e a aparente tranquilidade não disfarçam o clima de iminente ataque terrorista. Como consequência criou-se uma sociedade extremamente militarizada, paranoica e que vive da guerra. Muitos cidadãos Israelenses entram no exército muito jovens, com 17 anos, fazem carreira na instituição ou vão para a área de segurança privada, ou ainda fazem carreira política colhendo os louros do status de ex-combatentes ou "heróis de guerra".

Certa vez li uma frase, cujo autor não me recordo: "A maioria dos países do mundo têm um exército, em Israel o exército tem um país". É por aí.

“Viagem à palestina: Prisão a céu aberto” é um livro fascinante, uma aula de bom jornalismo, uma obra indispensável para sair da caverna do senso comum e entender melhor a causa palestina.