terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Viagem à palestina: Prisão a céu aberto (Resenha)


Se eu tivesse que definir o livro “Viagem à palestina: Prisão a céu aberto”, da jornalista Adriana Mabilia, em uma palavra eu o definiria como “indispensável”. Em uma linguagem inteligível e didática, Mabilia consegue explicar aspectos fundamentais para a compreensão do drama, sofrimento, abandono e humilhação a que o povo palestino é submetido por Israel e o seu violento exército.

A obra é um relato da viagem que a autora fez à Palestina, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, período em que Israel promoveu mais um massacre à Faixa de Gaza. Ao meu ver o que enriquece esse livro-reportagem é exatamente a desobediência da jornalista a alguns preceitos clássicos da atividade, como por exemplo, limitar-se a narrar os fatos sem interferência das emoções para que os relatos se aproximem ao máximo da "realidade". Mabilia questiona se ignorar as emoções também não é uma forma de falsear a realidade. Assim a jornalista faz da emoção uma aliada na sua narrativa. Ela  mergulha na difícil rotina do povo palestino, conversando com homens e mulheres palestinos que contam suas histórias de sofrimento e violência, anda pelos territórios ocupados como se fosse árabe, acompanha protestos, entrevista políticos palestinos, diretores de ONGS, ativistas e cidadãos israelenses.

Dentre os inúmeros aspectos que me chamaram a atenção no livro, destaco alguns de suma importância, como a noção distorcida de que o povo palestino é violento; absolutamente, como bem frisou uma italiana observadora de uma ONG: "A Europa não tem ideia do que acontece por aqui, a informação que chega para nós é totalmente distorcida. O povo palestino tem todos os motivos do mundo para ser revoltado e violento. Mas consegue manter a calma. É um povo pacífico". Posteriormente, ao analisar o fenômeno dos homens e mulheres-bomba, a jornalista observa que a imprensa Ocidental só mostra "da explosão em diante" e despreza todos os fatos que criaram o (a) suicida.

Jornalista Adriana Mabilia, autora do livro

Adriana Mabilia também descreve a angústia que é se deslocar pelos territórios ocupados e ser constantemente submetida às revistas nos "checkpoints", as barreiras que Israel cria dentro dos territórios ocupados com a justificativa de "conter o terrorismo", mas que na prática servem mesmo para atrapalhar a vida dos palestinos. São locais perigosos, como disse um motorista palestino: "Os soldados são treinados para matar árabes". Histórias de violência, desrespeito aos direitos humanos, barbáries cometidas pelo exército e colonos judeus, roubo de terras, etc...são as histórias de todos os palestinos, sem exceção.

Sociedade militarizada e paranoica

Israel também paga um preço alto pelos crimes que comete...

Diz Adriana Mabilia: "Em Israel a energia é bélica, o clima é hostil, vive-se pronto para a guerra[...]; são pessoas que só enxergam inimigos. São pessoas que alimentam uma paranoia". Foi exatamente essa a impressão da jornalista ao se locomover dentro de Israel. O conforto, o trasporte público de qualidade e a aparente tranquilidade não disfarçam o clima de iminente ataque terrorista. Como consequência criou-se uma sociedade extremamente militarizada, paranoica e que vive da guerra. Muitos cidadãos Israelenses entram no exército muito jovens, com 17 anos, fazem carreira na instituição ou vão para a área de segurança privada, ou ainda fazem carreira política colhendo os louros do status de ex-combatentes ou "heróis de guerra".

Certa vez li uma frase, cujo autor não me recordo: "A maioria dos países do mundo têm um exército, em Israel o exército tem um país". É por aí.

“Viagem à palestina: Prisão a céu aberto” é um livro fascinante, uma aula de bom jornalismo, uma obra indispensável para sair da caverna do senso comum e entender melhor a causa palestina.

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