25 janeiro 2016

SiCKO, SOS Saúde



O cineasta estadunidense Michael Moore é polêmico. Crítico inveterado da política e sociedade do seu país, costuma abordar temas que os governantes dos EUA preferem manter sob controle. Em "Sicko, SOS Saúde" (2007) - disponível na Netflix - Moore coloca o dedo em uma das piores feridas dos EUA, o seu sistema de saúde, um dos mais injustos do mundo.

O cineasta expõe em mais de duas horas de relatos e casos os efeitos colaterais provocados por um sistema de saúde completamente privatizado, que trata os pacientes como cifrões.

Cartel dos planos de Saúde

Todo estadunidense empregado é automaticamente ligado a um plano de saúde, o sistema público é totalmente sucateado, quase inexistente. Esse aspecto aliado às duras restrições para adesão a um plano de saúde, criou uma legião de 50 milhões de cidadãos dos EUA sem qualquer tipo de cobertura médica. Se ficarem doentes se curam só, buscam outras alternativas ou simplesmente morrem. 

Mas a vida de quem tem plano de saúde não é mais fácil por esse motivo. Estar coberto não significa ter o problema de saúde resolvido quando se precisa. Em um mercado dominado por pouco mais de uma dezena de planos de saúde, criou-se uma verdadeira indústria da "não-autorização" de tratamentos médicos, assim, pessoas com problemas graves têm os seus tratamentos negados deliberadamente ou parcialmente autorizados pelos planos, mesmo que isso resulte em morte. Segundo relatos de ex-funcionários de grandes empresas de planos de saúde entrevistados por Moore, os seguros tratam as autorizações de procedimentos como "prejuízo" e os diretores precisam cumprir uma "meta" percentual de solicitações não autorizadas. Há até mesmo uma bonificação para os diretores campeões em "economizar" para a empresa de plano de saúde.

Comparações

Moore também faz um comparativo do sistema de saúde estadunidense com os sistemas britânico, francês, canadense e cubano, países com medicina de alta qualidade e universalizada. Para demonstrar o mar de desigualdade entre o sistema de saúde dos EUA e o de Cuba, Michael Moore leva alguns cidadãos americanos doentes, sem cobertura ou negligenciados pelos seus seguros nos EUA, para serem tratados em Cuba. Na ilha de Fidel Castro eles recebem tratamento médico e dentário e fazem exames, tudo de graça. Os pacientes também compram medicação com valores equivalentes a centavos de dólar. Todos saíram de Cuba satisfeitos e impressionados por ninguém ter perguntado se eles tinham convênio ou dinheiro para pagar o tratamento.

O cineasta conclui que o estigma criado durante a guerra fria, da "medicina socializada" (ou comunista) ser ineficaz, caótica e "suja", serve de base argumentativa para o lobby dos planos de saúde reforçar esse modelo de medicina privatizada que só enxerga cifrões. A noção de que a medicina socializada é "ruim", ao contrário do que mostra SOS Saúde, também é constantemente reforçada na mídia estadunidense com críticas sempre presentes ao sistema canadense e francês.

Um filme indispensável nesta época em que se discute até a privatização do SUS no Brasil.

11 janeiro 2016

Aileen Wuornos: Vida e morte de uma assassina em série


Quando conhecemos a história de algum criminoso a tendência é condená-lo sumariamente, nunca pensamos nos fatos anteriores ao primeiro crime. É de fato um exercício difícil, mas  é exatamente o que o cineasta inglês Nick Broomfield fez em dois documentários que produziu sobre Aileen Carol Wuornos, considerada a primeira assassina em série dos Estados Unidos. Diferentemente do filme Monster, desejo assassino (2004), os documentários "Aileen Wuornos: The Selling Of a Serial Killer" (1993) e "Aileen: Life and Death of a Serial Killer" (2003) fazem uma exploração detalhada da vida de Aileen Wuornos, da infância até os momentos que antecederam a sua execução por injeção letal. Os trabalhos de Nick Broomfield nos fazem refletir sobre o que se poderia esperar de alguém como Aileen, que teve uma vida marcada pela rejeição, abandono, abusos, prostituição e violência.   

Infância e adolescência

Aileen nasceu em 29 de fevereiro de 1956, de um parto pélvico complicado. Sua mãe biológica, que a abandonou logo após o seu nascimento, chegou a especular que o comportamento violento da filha seria resultado de sequelas ligadas ao parto. Criada pelo pai e por parentes, teve uma infância desregrada e aos 13 anos já estava grávida. Após ter a criança e doá-la para adoção, Aileen foi expulsa de casa e obrigada a viver em um bosque, onde dormia em carros abandonados no local. Foi nessa época que começou a se prostituir nas estradadas. Quando tinha a "sorte" de pegar um cliente "bom", ainda conseguia tomar um banho e dormir em uma cama, protegida do frio rigoroso do estado do Michigan.

Assassinatos em série

Morando na Flórida Aileen conheceu Tyra Moore, o grande amor da sua vida e talvez o único. Uma das hipóteses é que ela tenha começado a matar para sustentar o estilo de vida de bebedeiras e noitadas da namorada. Como a única fonte de renda do casal eram os programas de Aileen, ela precisou de uma "fonte de renda extra" e resolveu buscá-la no crime. O seu modus operandi era simples, ela se oferecia como prostituta nas estradas, levava os homens para um bosque, lá chegando sacava a sua arma, atirava neles, roubava o dinheiro e os carros. Foi assim que Aileen assassinou 7 clientes até ser presa. 

Ao contrário da maioria dos assassinos em série a motivação para os crimes não era o prazer ou necessidade de matar, pelo menos essa é a impressão que se tem nos depoimentos e entrevistas dela. A motivação maior seria o dinheiro o desejo de satisfazer Tyra. No documentário "Aileen: Life and Death of a Serial Killer" (2003) ela chega a sugerir isso, inclusive.

Outra parte controversa da vida de crimes de Aileen é o envolvimento de Tyra. A namorada sabia dos assassinatos e nada fez para impedi-los, porém a sua participação direta nos crimes nunca pôde ser comprovada.

Prisão, oportunismo, "justiça", loucura e morte

Depois de presa as coisas continuaram como sempre foram para Aileen. Foi abandonada por Tyra, que além de depor contra ela tentou negociar os direitos de uma futura produção de Hollywood unindo-se a policiais corruptos que queriam faturar com a história da primeira assassina em série dos EUA. Fragilizada, caiu nas garras de dois oportunistas, o seu advogado de defesa e uma mulher que se dizia "cristã", comovida com a história de vida de Aileen e resolveu "adotá-la". Ambos começaram a cobrar para dar entrevistas e para facilitar o acesso a ela na prisão. A peça de defesa apresentada pelo advogado foi algo entre o bizarro e o amador. Em momento algum ele tentou, como é dever do defensor, tornar a pena mais branda (no caso, evitar a pena de morte), limitou-se a aconselhar sua cliente a se declarar culpada sob a alegação que era dela o desejo de morrer. Parece que o advogado ignorou deliberadamente o estado mental de sua cliente e os efeitos psicológicos sofridos por alguém no corredor da morte.

Um dia antes de ser executada Aileen Wurnos ainda concedeu uma última entrevista a Nick Broomfield. Durante a conversa ela mostrou-se visivelmente fora da realidade, falando coisas desconexas, completamente enlouquecida. É espantoso saber que um dia antes da entrevista ela foi avaliada por uma junta psiquiátrica que a considerou "psicologicamente apta". Se sua sanidade tivesse sido contestada a execução teria sido adiada.

Não obstante os crimes que cometeu, os documentários de Nick Broomfield humanizam Aileen Wurnos, fazem uma autópsia de sua vida desgraçada, revelam os interesses financeiros e políticos por trás de qualquer caso que ganhe notoriedade e revelam uma justiça que não é muito diferente da brasileira, que existe para punir com rigor os desfavorecidos, e somente eles.

Ambos os documentários, Aileen Wuornos: The Selling Of a Serial Killer e Aileen: Life and Death of a Serial Killer, de Nick Broomfield, estão disponíveis na Netflix, pelo menos até esta data.