10 janeiro 2019

Gleisi Hoffmann é a regra, não a exceção


No Brasil da polarização política todos os dias há uma polêmica. A de hoje foi a presença da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, na posse de Nicolás Maduro, presidente reeleito da Venezuela. 

Tenho minhas críticas ao governo venezuelano, afinal, governos perfeitos só existem nas propagandas eleitorais, mas qualquer crítica que não leve em consideração a ofensiva imperialista ao país é demagogia pura.

Essa ofensiva derrubou, através de golpes, governos legítimos e populares como Maneul Zelaya em Honduras, Fernando Lugo no Paraguai e Dilma Rousseff no Brasil. Quando foi possível agir dentro da legalidade, essas forças desalojaram lideranças progressistas no voto, depois de campanhas massivas de ataques, como Cristina Kirchner na Argentina e Rafael Correa no Equador. Mas isso é assunto para outro artigo. Voltemos à Venezuela.

O que proponho é uma leitura sóbria de alguns dos principais argumentos utilizados para condenar a Venezuela. Todos pontuados abaixo:

A Venezuela é uma Ditadura e viola os direitos humanos   

 A Venezuela é a maior reserva de petróleo do mundo. A segunda maior reserva é a Arábia Saudita, uma ditadura brutal. Lá as mulheres supostamente adúlteras e as adolescentes que "envergonham a família" por qualquer suspeita de conduta sexual inapropriada, são afogadas nas piscinas de suas casas pelos próprios familiares. Se há uma nesga de "misericórdia", são confinadas pelo resto da vida em um quarto construído em alvenaria, sem portas ou janelas, somente com uma pequena passagem para o fornecimento de alimentos e produtos básicos. Se os dois países violam os direitos humanos, por que ninguém incomoda a Arábia Saudita? Seria porque a AS negocia o seu petróleo com os EUA e UE nas condições que eles impõem. Talvez o verdadeiro interesse não seja direitos humanos e sim o petróleo venezuelano. Não seria a primeira vez. Não vamos esquecer as "armas de destruição em massa" do Iraque.

Não reconhecer o resultado das eleições.

Não aceitar o resultado das eleições de opositores com o objetivo de tumultuar governos legítimos é uma das estratégias mais manjadas da direita. Foi assim quando Aécio Neves pediu "recontagem dos votos" quando perdeu para Dilma em 2014 e posteriormente ajudou a articular o golpe. Nas eleições de 2018 Bolsonaro também ensaiou por várias vezes não aceitar outro resultado que não a sua vitória. Colocou em dúvida por várias vezes a segurança das urnas eletrônicas e o processo eleitoral do país. Quando ganhou, não falou mais no assunto.

Eleição de Maduro foi fraude

Na Venezuela o eleitor passa por 8 etapas até confirmar o voto em definitivo. O processo combina métodos digitais e analógicos e é bem mais seguro do que o brasileiro. Não parece razoável fraudar 8 etapas de um processo. Some-se a essa dificuldade a presença de observadores internacionais e a fúria da direita venezuelana, atenta a qualquer deslize.

Muitas Abstenções invalidam a eleição

Um critério que só é usado para a Venezuela. Maduro foi eleito com mais de 62% dos votos válidos e é isso o que importa. Na Venezuela, a exemplo dos EUA, o voto não é obrigatório. Se o critério for reconhecer somente os eleitos que conseguiram maioria absoluta, é preciso não reconhecer também Trump como presidente dos EUA e Bolsonaro como presidente do Brasil. Ambos se elegeram, como Maduro, por maioria dos votos válidos.

A neutralidade é tradição da diplomacia Brasileira

É da tradição brasileira a neutralidade diplomática. O saudoso ex-chanceler Celso Amorim dialogava com Cuba, EUA, Palestina, Israel, Irã, Venezuela, etc. A exclusão das chamadas ditaduras, e os critérios para defini-las, é uma "inovação" do governo Bolsonaro que, ao mesmo tempo em que exclui de sua posse Cuba, Venezuela e Nicarágua, recebe países governados por ditaduras ou governos autoritários como Rodrigo Duterte, das Filipinas, Viktor Orban, da Hungria, Recep Tayyip Erdogan, da Turquia,  Arábia Saudita, Egito e outras nações acusadas de graves violações aos direitos humanos,  como Israel.  

Gleisi Hoffmann apenas honra a tradição democrática da diplomacia brasileira, ela é a regra, não a exceção.

Por fim...

É preciso enxergar além das aparências. O maniqueísmo sempre foi utilizado pelas grandes potências Ocidentais como arma para alcançar objetivos geopolíticos e econômicos. Não é diferente com a Venezuela. 

Se o nosso vizinho fosse o maior produtor de bananas do mundo, ao invés da maior reserva de petróleo do planeta, será que haveria preocupação com a crise humanitária que assola o povo venezuelano? 

Propor mais sanções econômicas à Venezuela, como querem EUA e UE, é uma forma de resolver a crise humanitária instalada no país ou é uma forma de agravá-la, com o objetivo de inflamar a população contra o governo e derrubá-lo? 

As críticas à Venezuela e a Gleisi Hoffmann devem vir acompanhadas de respostas a esses questionamentos, sob pena de cair na vala comum do discurso ideológico da direita.

Infelizmente, parte da esquerda já caiu nessa esparrela e faz novamente o jogo da direita, o mesmo que nos fez retroceder até esse governo. 

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