12 janeiro 2019

Histórias que o nosso cinema (não) contava


O documentário "Histórias que o nosso cinema (não) contava" é uma produção extremamente interessante que entrou recentemente no catálogo da Netflix (janeiro de 2019). Dirigido por Fernanda Pessoa, traz uma coletânea de cenas de algumas produções de um gênero cinematográfico brasileiro que ficou conhecido como "pornochanchada". 

As "pornochanchadas" se caracterizavam pelo conteúdo sexual ousado e o humor, elas reinaram nas salas de cinema do país entre os anos 1970 e início dos anos 80, ou seja, no auge da ditadura civil militar brasileira.

De um modo geral as pornochanchadas são vistas até hoje como vulgares, de baixo nível e pornográficas, enfim, como cinema de segunda classe. É exatamente esse preconceito que o documentário de Fernanda Pessoa tenta desconstruir. Ao meu ver, com bastante eficiência.

Com cenas de filmes captadas de várias produções da época de ouro das pornochanchadas, a diretora constrói uma narrativa que revela um cinema crítico, subversivo ao regime militar, ousado e inteligente.

A narrativa dá a impressão de que vivemos em uma espécie de "remake" daquele período. A produção mostra que os debates e problemas da época são praticamente os mesmos de hoje: racismo, preconceito, corrupção, crise econômica, moralismo e hipocrisia, feminismo, autoritarismo, despolitização e , consequentemente, o nosso desprezo pela democracia.

As cenas de nudez e sexo erma usadas como estratégia para atenuar a crítica ácida ao regime militar. Os diretores e roteiristas satirizavam a paranoia do "comunismo" e a capacidade intelectual dos militares. "Cuidado com os livros que você lê meu filho, o ideal mesmo é não ler nenhum", aconselha um delegado depois de ser enganado por um rapaz levado até a delegacia por suspeita de ter em casa "conteúdo subversivo." 

Fatos históricos que marcaram a brutalidade do regime militar também são reencenados, sempre em tom crítico. No caso do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, a cena do filme (que reproduz a cena dantesca de Herzog enforcado) coloca em dúvida a versão oficial do suicídio através de um diálogo entre quatro policiais que encontram o corpo. Somente se nos colocarmos no contexto histórico e político em que aquele filme foi gravado, teremos uma pequena noção da ousadia do diretor e do risco que ele correu ao retratar aquele fato daquela forma.  

"Histórias que o nosso cinema (não) contava" é uma grata surpresa, um documento rico em vários aspectos. É o testemunho de um período histórico difícil e que jamais deveria se repetir, ao mesmo tempo em que mostra como as artes e o cinema se opõem ao poder. 

Não por acaso o cinema crítico, as artes e a educação são os primeiros alvos de governos totalitários. Isso talvez ajude a explicar também a construção negativa da imagem das pornochanchadas e a negligência com que as películas do gênero foram tratadas, já que centenas delas foram danificadas por problemas de conservação ou simplesmente desapareceram.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário